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Como eu escolho as botas usadas que entram no Garimpo 1961
O que eu olho antes de colocar uma bota no Garimpo 1961
Muita gente acha que o Garimpo 1961 é só um lugar onde eu coloco botas usadas pra vender mais barato.
Não é.
Antes de qualquer par entrar ali, eu faço uma triagem bem criteriosa.
Tem coisa que simplesmente não passa.
Vou te contar exatamente o que eu olho.
1) Estrutura da construção x estrutura do couro
Aqui tem uma diferença que pouca gente percebe, mas que é fundamental.
Uma coisa é a estrutura da construção da bota.
Outra coisa é a estrutura do couro e dos componentes internos.
Eu avalio separadamente.
Na parte da construção, eu olho:
• se a biqueira mantém forma
• se o contraforte ainda está firme
• se a bota não “tombou” para dentro
• se a sola não está solta da entressola
• se a costura principal está íntegra
Quando algo aqui não está perfeito, eu não descarto de cara.
Eu analiso se existe possibilidade real de reparo.
Se der pra corrigir em sapateiro especializado e o resultado final ficar honesto, a bota segue no processo.
Se não der pra recuperar essa estrutura de forma segura, aí sim ela não entra no Garimpo.
2) Estado do cabedal (a parte mais importante da bota)
Aqui entra o ponto mais crítico de todos.
O cabedal é toda a parte superior da bota feita em couro.
É ele que dá forma, identidade e vida útil ao calçado.
Sola você troca.
Palmilha você troca.
Forro você troca.
Cabedal, não.
Eu olho:
• se o couro está saudável
• se está muito ressecado
• se tem trinca estrutural
• se já foi lixado ou afinado demais
• se tem rasgo, corte profundo ou dano irreversível
• se responde bem à hidratação
Marcas de uso normal não são problema.
Pelo contrário, fazem parte da história da bota.
Dano estrutural no cabedal, não.
Isso não tem conserto honesto.
3) Palmilha e estrutura interna
A palmilha e o interior da bota também contam muito.
Eu avalio:
• se a palmilha ainda tem estrutura
• se não afundou demais
• se não quebrou internamente
• se não está com mofo ou odor irreversível
• se dá pra substituir sem comprometer a construção
Tem coisa aqui que dá pra resolver.
Tem coisa que não compensa.
Esse equilíbrio é parte da curadoria.
4) Possibilidade real de reparo ou ressola
Nem toda bota usada vale a pena recuperar.
Eu olho:
• se a construção permite ressola
• se existe material compatível
• se o custo de reparo ainda faz sentido
• se o resultado final vai ficar honesto
Se o conserto vai custar quase o preço de uma bota nova, ela não entra no Garimpo.
Simples assim.
5) Modelo, raridade e contexto
Aqui entra a parte mais “curadoria” mesmo.
Eu considero:
• se é modelo fora de linha
• se é cor que não existe mais
• se é edição limitada
• se é protótipo
• se é par usado em sessão de fotos
• se é numeração rara
• se é um modelo que a galera vive pedindo
Tem bota que entra no Garimpo mais pela história do que pelo estado.
6) A história daquela bota
Esse é um critério que não aparece em ficha técnica, mas pesa muito pra mim.
Eu sempre olho:
de onde essa bota veio e por que ela existe.
No Garimpo entram, por exemplo:
• amostras de modelos que nunca entraram em linha
• cores que eu mandei fazer e, ao ver ao vivo, decidi não produzir
• protótipos de desenvolvimento
• pares usados em sessão de fotos e conteúdo
• botas devolvidas por clientes por motivos bobos
• numerações que sobraram de lotes pequenos
Cada uma dessas botas tem um contexto.
E isso importa.
Tem par que entra no Garimpo mais pela história do que pelo estado.
Tem par que nunca mais vai existir igual.
7) Nada entra sem eu ver antes
Isso aqui eu faço questão de deixar claro.
Nada entra no Garimpo no automático.
Nada entra sem passar pela minha mão antes.
Eu olho tudo de perto:
couro, estrutura, sola, palmilha, costura, forma, desgaste real.
Mesmo botas devolvidas por clientes eu reviso uma por uma antes de colocar à venda.
8) Venda honesta, sem esconder nada
Esse é o ponto mais importante de todos.
Eu não omito informação.
Eu não “maqueio” problema.
Se a bota está muito usada, eu mostro.
Se tem marca forte, eu fotografo.
Se tem detalhe feio, eu descrevo.
Se está velha, toda acabada, mas eu acho que ela tem estilo e ainda tem vida útil, eu coloco à venda do jeito que ela é.
E conto a história dela.
Quem compra no Garimpo sabe exatamente o que está levando pra casa.
Sem surpresa depois.
9) Regra final: eu usaria essa bota hoje?
Essa é a última peneira.
Se eu não colocaria essa bota no meu pé hoje, ela não entra no Garimpo.
Não importa se ela é rara.
Não importa se ela é barata.
Não importa se ela é bonita em foto.
Se eu não teria coragem de usar, eu não vendo.
Simples assim.
Em resumo
Antes de uma bota entrar no Garimpo 1961, eu avalio:
• construção
• cabedal
• palmilha
• possibilidade de reparo
• desgaste real
• raridade
• história
• contexto
• e se eu usaria essa bota hoje
Se não passar nisso tudo, não entra.
O Garimpo 1961 não é desova de estoque.
Não é brechó sem filtro.
Não é “vale tudo”.
É curadoria pessoal.
E venda honesta.
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